O testemunho dos Santos e Mártires
"Santo Antônio preocupado também com a dicotomia que existia entre fé e vida na sociedade do seu tempo. Por isso, procurou através da Palavra de Deus formar a vida espiritual, ética e moral do povo, como forma de gerar uma sociedade mais fraterna"
Estimados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! Neste mês de junho, recordamos grandes personagens da nossa religiosidade popular, homens de Deus, que marcaram época e entraram no coração do povo, pela vida de oração, amor e proximidade com o Senhor. Lembramos de São João Batista, o precursor de Jesus, de São Pedro e São Paulo, homens que assumiram o chamado e viveram a vocação, como uma grande missão que o Senhor lhes confiara. E se mantiveram fiéis ao chamado, mesmo diante do mal que lhes tirou o sagrado dom da vida, porque tinham no coração a força da fé e a esperança de que o Senhor estava com eles e de que, após a morte, estariam com o Senhor, participando do banquete da vida eterna na sua glória.
O povo de Deus peregrino, mesmo nos momentos mais difíceis, pode perceber a presença de Deus, Pai misericordioso, que ama e sente compaixão e não abandona seus filhos e filhas, mesmo quando feridos pelos erros e fragilidades da vida. E para lembrar do amor de Deus e falar ao coração do povo peregrino, em cada tempo da história, Deus suscitou homens e mulheres que, como discípulos de Cristo, abraçaram a vocação e a missão de anunciar o Evangelho e testemunhá-lo com a vida.
Um destes santos, que é universalmente conhecido e muito lembrado pelo nosso querido povo de Deus, é Santo Antônio de Pádua. Identificado na história pelo seu amor a Cristo e à sua Palavra, ele fez da pregação um meio para fazer chegar ao coração do povo o que está contido na Sagrada Escritura. Foi um homem que se entregou à causa do Evangelho, amando o povo com um profundo amor-caridade. Uma caridade marcada pelas palavras do Evangelho, pela dor alheia, pela compaixão, ternura e vigor de quem sentiu-se abraçado pelo Cristo crucificado, com amor e misericórdia.
Mas a história real, que olha um pouco além das lendas e folclores, sem desmerecer os valores que elas contêm, nos revela um Santo Antônio preocupado também com a dicotomia que existia entre fé e vida na sociedade do seu tempo. Por isso, procurou através da Palavra de Deus formar a vida espiritual, ética e moral do povo, como forma de gerar uma sociedade mais fraterna, pacificada e solidária.
Entre a realidade da Idade Média, em que viveu Santo Antônio, e os dias atuais, muitos séculos se passaram, muitas coisas mudaram, mas ainda persiste em muitos cristãos uma certa dicotomia ou separação entre fé e vida, que fecha os olhos do coração para não ver a dor de quem tem a sua dignidade de vida desrespeitada e ferida no presente, e vive sem esperança em relação ao futuro.
Em 1221, Santo Antônio, que já era sacerdote, se encontra com São Francisco em Assis, e este, vendo que Antônio era um homem culto e intelectualmente bem preparado, convidou-o para ensinar aos freis a sagrada teologia. Mas Santo Antônio foi muito mais do que um professor, que conhecia muito bem a Sagrada Escritura, foi mestre de doutrina espiritual e de teologia, mas também um grande pregador. E como pregador, foi um peregrino. Percorrendo muitas cidades e fazendo uso das Sagradas Escrituras, pregou a conversão das pessoas. Defendeu com imenso zelo a família, ameaçada pela decadência moral e pelo abandono dos valores cristãos, onde os que mais sofriam eram as crianças, os pobres e os enfermos. Defendia a conversão e a caridade, como parte de uma vida cristã marcada pelos valores do Evangelho. Lembrando que diante de Deus todos nós somos peregrinos e necessitados, no caminho para a casa do Pai precisamos ser alimentados pelo pão da Palavra e da Eucaristia, e sermos saciados pelo pão material e reconciliados pela sua divina misericórdia, para vivermos em comunhão como irmãos.
+ Dom José Gislon, OFMCap.
Bispo Diocesano de Caxias do Sul


