• Paróquia Santo Antônio

Como José: no silêncio esperar!




SILE! OUT DIC MIGLIORA SILENCIO, (Silencie! Ou então, diga algo melhor do que o silêncio). Esta frase marca o Hall de entrada do antigo Convento San Cosimato, localizado em Vicovaro - Itália. Ao entrar no mosteiro e ao querer meditar nas grutas da encosta do rio..., o peregrino retirante deve tomar consciência de que, para se encontrar com a Verdade, deve silenciar-se por inteiro. O Verbo se faz presença na profundeza da alma que espera silenciosamente no grande silêncio das vozes da natureza!


“Um homem sem o silêncio é alguém estranho a Deus, exilado em um país distante que se mantém à margem do mistério humano e do mundo” (SARAH, 2019, p.208).


Talvez num mundo em que a “ditadura do ruído” prevalece, o silêncio do homem de Nazaré, José, se torna uma das mais belas escolas à nossa geração! O romancista polonês, Jan Dobraczynski, tem intuições geniais e, por bendizer, muito concretas da história de José de Nazaré: José amava o silêncio desde sua tenra infância. O silêncio lhe falava com mais clareza do que as vozes. Exigia sempre o mesmo: esperar. Ao seu lado, transcorria a vida agitada e ruidosa. Ouviam-se tantas palavras desnecessárias, tantas queixas ditas com leviandade, tantas certezas que nada significavam realmente... Estava mergulhado nessa corrente com seu silêncio, como pedra em meio à correnteza. Ele esperava, ainda que, verdade seja dita, não soubesse o que estava aguardando. Esperava aquilo que o silêncio iria dizer-lhe (DOBRACZYNSKI, 2017, p. 15).


São relatadas muitas virtudes de São José: justo, bom, educador, casto, trabalhador honesto e, poderíamos elencar uma longa lista. Mas há uma virtude teologal que impressiona: Esperança.


Esperava contra toda esperança! Muitas vezes deve ter se deparado em silêncio contemplativo orando com todo seu ser (coração, alma, recursos e entendimento), o Salmo 39, 2.8-9: “Esperando, esperei no Senhor, e inclinando-se, ouviu meu clamor. E então eu vos disse: ‘Eis que venho!’ Sobre mim está escrito no livro: ‘com prazer faço a vossa vontade, guardo em meu coração vossa lei!’”.


A vida é uma contínua luta com o próprio coração. Talvez o maior empreendimento bélico do ser humano seja exatamente este: uma luta dentro de si próprio. Recordemos o dia em que Jacó lutou contra o próprio Deus (Gn 32,28). Em José, “os chamados do silêncio lutavam com os apelos do coração. Mas o silêncio terminava sempre por impor-se” (DOBRACZYNSKI, 2017, p. 15).


É importante salientar que o homem que crê profundamente, não vive uma fé “bipolar”, ou seja, ora tristemente desesperado, ora alegremente eufórico. Ele vive serenamente numa alegria contagiante e num humor refinado que tanto os doutores, quanto as crianças admiram. Essa experiência se dá na alegria do Espírito Santo.


Na Evangelii Gaudium, Papa Francisco exorta: há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém que a alegria não se vive da mesma maneira em todas etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. [...] Compreendo que as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar, mas aos poucos, é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta, mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias: ‘a paz foi desterrada de minha alma, já nem sei o que é a felicidade (...). Isto, porém, guardo em meu coração; por isso, mantenho a esperança. É que a misericórdia do Senhor não acaba, não se esgota em sua compaixão. ‘Cada manhã ela se renova; é grande a tua fidelidade. (...) Bom é esperar em silêncio a salvação do Senhor’ (Lm 3,17.21-23.26)” (EG, 6).


O homem sábio sabe falar aos doutores, mas também aos simples e às crianças: “José em sua oficina, sempre cantava a enxó e ressoava o martelo. Ouviam-se também com frequência umas vozes infantis. Ele – o homem silencioso – amava as crianças e tinha prazer em falar com elas. Interessavam-lhes mais os problemas das crianças que os problemas dos adultos” (DOBRACZYNSKI, 2017, p.16). Assim, o tempo para José fluía imperceptível. Pois o silêncio faz o tempo passar imperceptível.


Conhecemos José porque, descendente de Davi, foi prometido em casamento a uma virgem chamada Maria de Nazaré, mãe de Jesus, Filho de Deus. Então, das promessas, chegamos às realizações: “Eis que uma Virgem conceberá um Filho, ele se chamará Emanuel, que significa, Deus conosco!” (Is 7,14). Sim! José da descendência de Davi, depois de longo aguardo no silêncio e contra toda esperança, encontra sua amada. Eles se apaixonam! Mas o mistério nós não vemos, basta a fé no coração! E na plenitude dos tempos o Anjo Gabriel surpreende:


Ave cheia de graça! O Senhor é contigo! Eis que conceberás, pelo Espírito Santo, e darás à luz um filho, ele será chamado Santo, Filho de Deus. Não temas Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Tua parenta também concebeu um filho. Este já é o sexto mês daquela que era considera estéril, porque para Deus, nada é impossível. Maria disse: eis aqui a serva do senhor! Faça-se em segundo a vossa Palavra! (Lc 1).


Assim, o Verbo se fez carne, concebido sob a sombra do Espírito Santo, nascido de mulher na noite silenciosa de Belém sob o silêncio da espera e guarda de José. No Filho de Deus e em Maria, entendemos, portanto, a grandeza de José! Deus como preparou uma mãe de seu Filho, também precisou de esposo para a mãe e de uma paternidade humana responsável para seu Filho. Com efeito, diz São Bernardino de Sena: “foi escolhido pelo Pai eterno para ser o guarda fiel e providente dos seus maiores tesouros: o Filho de Deus e a Virgem Maria. E cumpriu com a máxima fidelidade sua missão” (São Bernardino de Sena. Sermo 2, de S. Ioseph: Opera 7,27).


Normalmente o imaginário popular tem uma percepção demais idealizadora de São José e de sua paternidade. Alguns o idealizam já pronto, maduro, com uma idade avançada, e tantas elucubrações que distorcem uma aproximação dos Evangelhos. A obediência de José se dá em ouvir na noite escura, em sonhos, o mensageiro de Deus. O fato é este: um homem que esperava os desígnios de Deus para sua vida e de seu povo. A história da salvação, segundo a carta apostólica Patris Corde, “realiza-se ‘contra toda esperança’ (Rm 4,18), através de nossas fraquezas. Muitas vezes pensamos que Deus conta apenas com nossa parte boa e vitoriosa, quando, na verdade, a maior parte dos seus desígnios se cumpre através da nossa fraqueza e apesar dela” (FRANCISCO, 2020, p.11).


Santa Teresa D’ Ávila e São João da Cruz, recorrem a São José para a graça transformar a própria natureza humana. Papa Francisco recorrendo ao Livro da Vida de Santa Teresa diz que ela “o adotou como advogado e intercessor, recomendando-lhe instantemente a São José e recebendo todas as graças que lhe pedia” (FRANCISCO, 2020, p. 10); São João da Cruz, confessor e amigo da Santa vai ao encontro desse itinerário de silêncio que escuta, por que silencia e assim a esperança se reconstrói. No Cântico Espiritual, fala sobre a “música calada”. O som do silêncio é a primeira nota desta canção que é a música dos céus. “A linguagem que Deus mais gosta de ouvir é do amor silencioso” (Ditos de luz e amor – Carta 8, a las Carmelitas Descalazas de Beas, 22 de novembro de 1587).

A Escola de Nazaré é modelo de espera silenciosa. A presença do Verbo Divino se auto comunicava em profundo mistério de silêncio. Lá encontramos a harmonia, a paz e a alegria verdadeira. O silêncio de Jesus, o Cristo Senhor presente em corpo humano, está oculto no silêncio de Deus. O silêncio de Maria e de José, são guardados no coração pelas seguidas novidades do Filho. “O silêncio da manjedoura, o silêncio de Nazaré, o silêncio da Cruz, o silêncio do túmulo selado são o mesmo silêncio” (SARAH, 2019, p. 124).


Resta-nos aprender de José a paternidade responsável pelo Autor da vida. Um esposo que se encanta pela sempre Virgem. Um pai que revela o amor misericordioso do Pai!


Concluamos com a oração de São Bernardino de Sena: “Lembrai-vos de nós, São José, e intercedei com vossas orações junto de vosso Filho adotivo; tornai-nos também propícia vossa Esposa, a santíssima Virgem, mãe daquele que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos sem fim. Amém!” (São Bernardino de Sena. Sermo 2, de S. Ioseph: Opera 7,30).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


DOBRACZYNSKI, Jan. A sombra do Pai: história de José de Nazaré. São Paulo: cultor de Livros, 2017.

PAPA FRANCISCO. Patris Corde. Brasília: Edicões CNBB, 2020.

______. Evangelii Gaudium. São Paulo: Paulus Editora; Edições Loyola, 2013.

SARAH, Robert; NICOLAS Diat. A força do silêncio: contra a ditadura do ruído. Tradução Omayr José de Morais Junior. 2. Ed. São Paulo: Edições Fons Sapientiae, 2019.



Artigo do padre Ricardo Fontana, pároco da Paróquia Santo Antônio e coordenador da Região Pastoral de Bento Gonçalves, publicado na revista "Somos o Carmelo", das monjas Carmelitas de Caxias do Sul - RS.

46 visualizações0 comentário